Ao Ritmo do Fado

Em dia Especial… em que estamos prestes a saber se o Fado será ou não considerado património imaterial da humanidade deixo-vos com uma reportagem que fiz há uns anos:

É um som forte e quente o que vem lá de dentro. As pessoas que passam na rua, páram e olham mas John, de 24 anos,     decide entrar. “O fado faz-me sentir mais próximo de mim mesmo”, confessa-nos com os olhos embargados por uma luz que não se explica.

O museu do fado em Lisboa não tem tem paredes, abre-se à cidade e ao mundo para mostrar que a canção nacional está intrinsecamente ligada à alma deste povo plantado à beira mar. É uma canção popular que nos fala de saudade e do destino. Embora o museu tenha nascido há pouco tempo, o Fado nasceu conta com várias décadas de história. Nasceu nas ruas antigas de Lisboa e inicialmente era cantado sobretudo pelo povo. Era nas ruas de bairros como o Castelo, Alfama e tantos outros que diariamente os habitantes se reuniam para conviver e cantar as suas emoções. O Fado exprimia o que sentiam diariamente face às adversidades vividas na época. Por outro lado, servia como forma de entretenimento. Bastava apenas uma guitarra, uma história, e muita emoção. O Fado é sem duvida uma característica portuguesa e no museu trabalha-se afincadamente na defesa deste património tão nosso, tão lusitano. Trabalha-se na promoção dos valores nacionais e da expressão mais intensa e emocional da nossa cultura.

Depois de entrar, o John, o turista australiano que se sentiu seduzido por esta melodia que ouvia na rua, caminha com um olhar emocionado nos corredores do museu. No fundo ouve-se Carlos do Carmo que canta “Lisboa, menina e moça” de uma forma galhofeira e tão tipicamente bairrista. “No castelo ponho o cotovelo e em Alfama descanso o olhar, e assim desfaz-se o novelo, de azul e mar. ”. Sem saber a mensagem do que ouve pergunta à recepcionista o que quer dizer o título e de que fala a canção. É um jovem curioso e com vontade de saber mais sobre o som que o faz arrepiar. A recepcionista olha-o com simpatia à medida que lhe explica um pouco que museu é aquele e o convida a visitar o espaço.

Depois de decidir conhecer mais um pouco aquele som que já tinha ouvido na voz de Mariza, confessa-nos que não sabia muito bem o que era. Sabia apenas que gostava. O guia, o senhor Arlindo Santos que ia começar naquele momento mais uma visita, interrompe-o e diz-lhe apenas  ”o Fado é assim mesmo, não se explica, sente-se”.

A visita começa e a primeira paragem é junto ao painel principal do museu onde estão os grandes fadistas portugueses. E é ali que se tem o primeiro contacto com esta expressão do sentimento português: “O fado diz muita coisa: é o destino, a alegria e a tristeza, a saudade…é mais do que a vida!”, diz o senhor Arlindo entusiasmado.

Após este primeiro contacto com o Fado, somos convidados a avançar então para a a sala do piano. Lá John encontra um piano antigo e uma guitarra de cordas gastas. Sente o cheiro da madeira antiga e fica um pouco confuso. Pergunta ao seu guia se o fado também é tocado com piano. O guia sorri e diz que o Fado é tocado sobretudo com a alma. Aponta para o quadro da meretriz e do fadista que está no fundo da sala e começa a contar a história de Maria Severa Onofriana,  a mulher do quadro. “Ela era uma meretriz, teve um caso com o Conde de Vinioso entre 1820 e 1846…ela é um mito do fado”, diz ele. Esta história capta a atenção não só de John mas também de mais 5 turistas que faziam parte do grupo. Todos parecem bastante interessados na história desta prostituta que tem tanto de sedutora como de enigmática. A explicação já vai longa e o senhor Arlindo, claramente apaixonado pelo que faz, diz que é hora de avançar.

À medida que avançam para a sala seguinte, Arlindo conta ao jovem turista algumas curiosidades. “Antes os fadistas tinham de ter uma carteira profissional para poderem cantar”. O jovem fica surpreso pois achava que para se cantar não eram necessários documentos mas sim talento. Chegados à sala seguinte, encontram o Rodrigo, um fadista que está no museu pela quinta vez. Arlindo cumprimenta o fadista e pede-lhe que cante uma música para o australiano e para os outros visitantes. “Fado é destino marcado, fado é perdão ou castigo…”. Todos páram, olham e sentem. Ficam imobilizados por este som e sobretudo pelo que sentem através da voz e das palavras do fadista. Confessam que não percebem o que ele diz, mas concordam com o que Arlindo dizia no início da visita. O Fado não se explica, sente-se.

São 15h20 e John agora dirige-se para a saída. Sente-se calmo e emocionado com o que aprendeu neste museu. Agora entende as vestes de Mariza, e o porquê de por vezes a vermos chorar em palco. Diz-se satisfeito e encantado e quer comprar alguns cd´s para oferecer à sua mãe e namorada. O guia fica encantado com a sua curiosidade e eis que o convida a jantar em Alfama no mesmo dia para ouvir e sentir a essência do Fado. O australiano aceita. Trocam contactos e agora é hora de John continuar a sua visita por Lisboa.

Ao sair leva um pequeno encontrão da dona Júlia e os seus amigos entram. Agora vêm na companhia de outra guia que pede algum silêncio. Os idosos estão alegres, mas Júlia grita e diz “silêncio porque se vai cantar o fado!”.

Deixo-vos ainda com o quadro da severa… e com um dos Fados mais emblemáticos da nova geração:

Deixar um comentário

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.